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Pandemia impulsionou alta histórica de mortes por álcool e drogas no Brasil
Estudo nacional aponta crescimento de até 26% nos óbitos e expõe 'epidemia silenciosa' agravada pela Covid-19.
A pandemia de Covid-19 deixou no Brasil um rastro de mortes que vai além do vírus. Entre 2020 e 2022, as mortes associadas ao uso de álcool e outras drogas cresceram de forma contínua e estatisticamente significativa, rompendo uma tendência de estabilidade que vinha sendo observada antes da crise sanitária. O aumento chegou a 26% em 2022, em comparação com o número esperado de óbitos, segundo um amplo estudo populacional publicado na revista científica The Lancet Regional Health – Americas.
A pesquisa analisou dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, cobrindo todo o território nacional entre 2015 e 2022. No total, foram 178 mil mortes relacionadas ao uso de substâncias psicoativas, sendo mais de 80% associadas ao álcool, principal vetor do problema no país.
“Os resultados indicam uma epidemia colateral de mortes por álcool e drogas, alimentada pelas rupturas nos serviços de saúde, na redução de estratégias de cuidado e pelo agravamento das desigualdades sociais durante a pandemia”, afirma a enfermeira e pesquisadora Lariane Angel Cepas, da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da USP, autora do estudo.
Quebra de tendência histórica
Antes de 2020, o Brasil apresentava um quadro relativamente estável — e em algumas regiões até decrescente — de mortalidade associada ao consumo de álcool e drogas. Entre 2015 e 2019, o país registrava variação anual próxima de zero. Esse padrão foi interrompido a partir de março de 2020, quando a Organização Mundial da Saúde declarou a pandemia.
Segundo os autores, houve um salto imediato e sustentado nos óbitos: 18,3% a mais em 2020, 22,4% em 2021 e 26% em 2022, sempre em relação ao número de mortes esperado com base nos cinco anos anteriores.
“A análise de séries temporais mostra que o aumento não foi aleatório. Ele coincide diretamente com o início da pandemia”, explica Lucas Almeida Andrade, pesquisador da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e um dos primeiros autores do trabalho.
Desigualdades regionais e sociais
O crescimento das mortes não foi homogêneo. As regiões Nordeste, Sudeste e Sul concentraram os maiores aumentos percentuais. Estados como Amapá, Pernambuco e Tocantins registraram elevações superiores a 50% em pelo menos um dos anos analisados.
Para os pesquisadores, o fenômeno reflete desigualdades históricas que foram aprofundadas pela crise sanitária. “A pandemia atingiu com mais força populações já vulneráveis, com menor acesso a serviços de saúde, renda instável e maior exposição ao consumo nocivo de álcool”, afirma Álvaro Francisco Lopes de Sousa, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e da Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade Nova de Lisboa.
Mulheres e jovens entre os mais afetados
Embora os homens ainda concentrem a maior parte das mortes, o estudo aponta que o crescimento proporcional foi mais intenso entre as mulheres, com aumento médio anual de 4,6% após 2020. Jovens de 20 a 39 anos e idosos acima de 60 anos também passaram a registrar tendência de alta, revertendo padrões anteriores de queda ou estabilidade.

Segundo os autores, o isolamento social, o aumento da ansiedade e da depressão, além da interrupção de atendimentos presenciais em centros especializados — como os CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) — contribuíram para o agravamento do quadro.
“O álcool segue sendo o principal fator de risco, responsável por quase metade dos óbitos analisados. Isso exige políticas públicas mais firmes, com regulação, prevenção e fortalecimento da rede de cuidado” - Márcio Bezerra-Santos, professor da UFS e coautor do estudo
Os autores defendem que, sem investimentos estruturais e políticas intersetoriais, o país pode enfrentar novos ciclos de mortalidade em futuras crises sanitárias ou econômicas. “A pandemia revelou fragilidades que já existiam. Ignorá-las agora é aceitar que essa tragédia se repita”, conclui Cepas.
