Notícias
Crachá eletrônico desenvolvido pela Univasf ajuda na locomoção de pessoas com deficiência visual
![]() O professor Helinando de Oliveira e o estudante Kaic desenvolveram o projeto. |
Um projeto de extensão da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) desenvolveu um crachá eletrônico com tecnologia assistiva para auxiliar pessoas com deficiência visual. O dispositivo utiliza uma microcâmera integrada ao celular e Inteligência Artificial (IA) para transformar imagens do ambiente em descrições por voz.
O projeto teve início com sua versão 1.0 durante uma disciplina de Física Experimental ministrada pelo professor do Colegiado de Engenharia Elétrica, Helinandro Oliveira. A proposta da atividade era que os estudantes desenvolvessem soluções voltadas para demandas da sociedade. O estudante Kaic Soares de Souza, do terceiro período do curso de Engenharia da Computação, teve a ideia de criar um crachá eletrônico para auxiliar pessoas cegas.
Inicialmente, Souza desenvolveu um protótipo equipado com um sensor que emitia bipes à medida que o usuário se aproximava de um obstáculo. A ideia chamou a atenção do professor Helinandro Oliveira, que convidou o estudante para transformar a iniciativa em um projeto de extensão.
"Ele aceitou e começamos a desenvolver o crachá eletrônico", conta o docente. Segundo Oliveira, a primeira etapa do projeto consistiu em ouvir pessoas com deficiência visual para compreender melhor suas necessidades. "O primeiro passo foi entender as dores dessas pessoas. Tínhamos uma solução, mas precisávamos compreender o problema antes", afirma.
Os primeiros voluntários a testar o equipamento foram dois jovens atletas da Associação Petrolinense de Atletismo (APA). De acordo com os pesquisadores, o retorno não foi como esperado."Eles disseram que o som dos bipes era muito desagradável e incomodava bastante. Comparavam ao sensor de estacionamento de um carro, que emitia um apito muito intenso à medida que se aproximavam de um obstáculo", relata Oliveira.
Os voluntários manifestaram o desejo de que o dispositivo descrevesse o ambiente ao redor, em vez de apenas alertar sobre obstáculos. "Eles precisavam que alguém descrevesse a cena para eles. Então, passamos a trabalhar com a proposta de descrever o ambiente em vez de emitir alertas sonoros. Foi assim que o sistema evoluiu da versão 1.0 para a 2.0, incorporando Inteligência Artificial para realizar a descrição dos cenários", explica o professor.
![]() Microcâmera captura imagem do ambiente e a envia para um app instalado no celular. |
A versão atual é composta por uma microcâmera acoplada a um controlador fixado na camiseta do usuário. Ao pressionar o botão do crachá, a câmera captura uma imagem do ambiente e a envia para um aplicativo instalado no celular, que se comunica com um modelo de IA em nuvem. A descrição da cena é então convertida em áudio e reproduzida no aparelho do usuário. As imagens podem ser capturadas em intervalos médios de quatro a cinco segundos, permitindo atualizações frequentes da descrição do ambiente. A IA utilizada no projeto é o modelo Gemma 4, desenvolvido pelo Google.
Segundo Souza, a ideia de utilizar uma câmera associada à Inteligência Artificial surgiu a partir de conversas com pessoas com deficiência visual, que relataram dificuldades para adquirir dispositivos semelhantes já existentes no mercado devido ao alto custo ou à baixa disponibilidade. "Diante dessa realidade, quis criar um sistema embarcado com câmera e IA que tivesse um preço mais acessível e pudesse ser produzido aqui na região. Essa foi uma forma de tentar atender a essas necessidades", comenta.
Para o estudante, o principal desafio foi integrar todos os componentes do sistema. "Fazer a câmera, o aplicativo, o celular e a IA se comunicarem foi um dos maiores desafios. Ao mesmo tempo, isso me permitiu aprender muito sobre desenvolvimento de hardware e software, já que cada componente possui especificidades e linguagens próprias, o que torna todo esse processo bastante complexo", afirma.
Atualmente, o projeto mantém parceria com a Associação Petrolinense de Atletismo (APA), que solicitou mais oito unidades do crachá eletrônico. A produção dos novos dispositivos já foi iniciada com recursos disponibilizados pela própria associação. A expectativa é ampliar o número de usuários beneficiados e aperfeiçoar o equipamento a partir das novas experiências. "A ideia é que um estudante cego possa sair da sala de aula e ir ao banheiro sem precisar da ajuda de um acompanhante, utilizando o crachá eletrônico para se orientar durante o percurso", destaca Oliveira.
Segundo o professor, ainda existem poucas iniciativas nas engenharias voltadas ao desenvolvimento de tecnologias para pessoas cegas."Os produtos tecnológicos disponíveis atualmente para esse público são muito caros, como impressoras Braille, teclados em Braille e sistemas de óculos inteligentes. Nossa proposta é contribuir para resolver problemas reais das pessoas com deficiência visual, tornando suas vidas mais simples, com mais autonomia e independência. Queremos apoiar as pessoas cegas por meio da tecnologia que a engenharia é capaz de desenvolver", afirma.
Para Souza, participar do projeto representa uma importante realização acadêmica e pessoal."Sinto que, com o pouco que sei e aprendi até agora, consegui desenvolver algo com uma importância que nunca imaginei que teria", diz.
O estudante também destaca a relevância das tecnologias assistivas para a promoção da inclusão."Acredito que toda tecnologia assistiva, seja simples ou mais elaborada, é muito bem-vinda. Todas têm um papel importante. Espero que esse dispositivo possa cumprir sua função e contribuir para esse ecossistema da acessibilidade, que merece toda a nossa atenção", conclui.


