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Pesquisa revela barreiras no acesso de mulheres rurais ao diagnóstico e tratamento do câncer no Brasil
![]() A professora Rebeca apresentou resultados da pesquisa em evento internacional. |
A distância média de 759 quilômetros percorrida por pacientes até centros de referência, a dependência de outras regiões de saúde e a necessidade de custear exames na rede privada estão entre as desigualdades que dificultam o acesso de mulheres rurais ao diagnóstico e ao tratamento do câncer no Brasil. Os obstáculos foram identificados em estudos realizados com a participação da professora Rebeca Barreto, do curso de Ciências Biológicas e do Programa de Pós-Graduação em Política, Cultura e Ambiente (PoCAm) da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf). As pesquisas analisam as barreiras enfrentadas por essas mulheres e apontam limitações nas políticas públicas destinadas a garantir assistência oncológica.
Os resultados foram apresentados pela docente durante o 18th World Congress on Public Health 2026, realizado em setembro, na Cidade do Cabo, África do Sul. Os trabalhos “Inequalities in access to cancer treatment for rural women in the Brazilian Amazon: limits of a health mobility program” e “Geographical and political barriers to healthcare access in the cancer care pathway for rural women in the interior of Brazil” investigam as dificuldades enfrentadas por mulheres rurais e de comunidades tradicionais para acessar o diagnóstico e o tratamento dos cânceres de mama e do colo do útero.
Um dos estudos, de abrangência nacional, identificou que 42% dos municípios analisados dependem de outras regiões de saúde para a realização do diagnóstico, enquanto 61% precisam recorrer a outras regiões para o tratamento. A pesquisa também revelou que 32% das pacientes precisaram pagar por exames na rede privada com recursos próprios para obter a confirmação diagnóstica. Na Região Norte, todos os municípios analisados dependem do deslocamento de pacientes para outras regiões de saúde para a realização do tratamento oncológico.
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Os dados evidenciam as dificuldades enfrentadas por mulheres que vivem longe dos centros de referência e os impactos da concentração dos serviços especializados. Segundo Rebeca, as barreiras não se limitam à distância geográfica. Falhas na coordenação da rede do Sistema Único de Saúde (SUS), dificuldades no encaminhamento entre os diferentes níveis de atenção, entraves burocráticos e demora na liberação de transporte e ajuda de custo também prejudicam o acesso à assistência.
“Esses obstáculos afetam especialmente mulheres rurais, ribeirinhas e integrantes de comunidades tradicionais, sobretudo nas regiões Norte e Nordeste. Além das dificuldades de deslocamento e das limitações financeiras, essas mulheres enfrentam a sobrecarga de tarefas domésticas e de cuidados familiares, fatores que podem dificultar a continuidade do acompanhamento e do tratamento”, conta a docente.
Um dos trabalhos também avaliou o Tratamento Fora do Domicílio (TFD), programa que possibilita o deslocamento de pacientes para receber atendimento em outros municípios. Embora esteja operacionalizado em 81% dos municípios pesquisados, sua implementação apresenta limitações. Apenas 47% desses municípios oferecem casas de apoio para pacientes que precisam permanecer fora de seus locais de origem, e somente 8% realizam busca ativa de pacientes nas zonas rurais.
De acordo com a professora, as limitações do programa incluem excesso de burocracia, cobertura insuficiente e atrasos na liberação de transporte e de diárias ou ajudas de custo. “O modelo também não contempla adequadamente as particularidades geográficas e o isolamento de populações rurais e ribeirinhas”, ressalta. Entre as medidas apontadas para melhorar a assistência estão a desburocratização do TFD, a ampliação do transporte sanitário, a criação de redes de casas de apoio e a descentralização dos serviços de diagnóstico e tratamento.
Os estudos integram o projeto “Acesso da população rural à saúde: uma análise das desigualdades socioterritoriais, étnico-raciais e de gênero”, também denominado “Travessias da Saúde”, financiado integralmente pelo Ministério da Saúde e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). A iniciativa é coordenada pela professora Lorena Lima de Moraes, da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), em parceria com pesquisadores de outras instituições.
Para Rebeca, a apresentação dos trabalhos no 18th World Congress on Public Health 2026 contribuiu para ampliar a visibilidade internacional das pesquisas desenvolvidas pelo projeto, além de fortalecer a internacionalização da Univasf e do PoCAm. “Foi uma oportunidade ímpar para dar visibilidade internacional às barreiras enfrentadas por mulheres rurais e ribeirinhas do Brasil profundo no acesso à saúde pública”, ressaltou.
A docente destaca, ainda, que os resultados podem subsidiar o Ministério da Saúde e os gestores do SUS na formulação e no aprimoramento de políticas públicas voltadas à redução das desigualdades no acesso à assistência oncológica. Além das mudanças no TFD, as pesquisas apontam a necessidade de fortalecer o diagnóstico precoce no interior, reduzir os chamados desertos assistenciais e desenvolver estratégias de promoção, prevenção e tratamento que considerem as particularidades de cada território.
“As evidências apontam caminhos concretos para a reformulação do TFD, a redução dos desertos assistenciais, o fortalecimento do diagnóstico precoce no interior e a criação de políticas de saúde que respeitem a territorialidade e promovam a equidade socioterritorial, de gênero e étnico-racial no Brasil”, pontua Rebeca.


