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Univasf realiza 11º Fórum de Mobilização Antimanicomial com programação sobre cuidado em liberdade

publicado: 20/10/2026 12h07 última modificação: 20/10/2026 12h07


Espaços autogestionados promoveram debates sobre organização política, democracia, justiça social e cuidado em liberdade.

Entre oficinas, minicursos, rodas de conversa, cirandas narrativas e práticas integrativas, manifestações artísticas e caminhada pelas ruas de Juazeiro (BA), a Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) realizou, de 14 a 16 de outubro, o 11º Fórum de Mobilização Antimanicomial (FMA). O evento ocorreu em conjunto com a 7ª Mostra de Atenção Psicossocial do Sertão do Submédio São Francisco (MAP) e o 2º Encontro da Seção Regional Nordeste 2 da Rede Unida. Com o tema “Cuidado em território: a vida além do diagnóstico”, o encontro reuniu diferentes expressões e iniciativas de formação e mobilização em defesa do cuidado em liberdade.

A patologização da vida e a medicalização do social estiveram entre os principais temas debatidos. “O tema deste ano toca em uma questão central: a patologização da vida e a medicalização do social. A gente espera que as pessoas compreendam o sofrimento psíquico a partir do contexto de vida de cada um e das relações de opressão presentes no próprio sistema capitalista. A expectativa é que saiam daqui mobilizadas pelo desejo de construir formas de cuidado mais inventivas e respeitosas às singularidades de cada existência”, ressaltou a coordenadora do evento, Bárbara Cabral, professora do Colegiado de Psicologia da Univasf.

Na quarta-feira (14), primeiro dia do encontro, foram realizadas vivências, oficinas e minicursos, além de atividades do eixo “EPS segue em movimento: formação, saúde mental/atenção psicossocial e cuidado mútuo”. A programação também abordou a formação em saúde e sua contribuição para o fortalecimento das políticas públicas, com discussões sobre iniciativas como VER-SUS, AfirmA SUS, PET-Saúde, residências em saúde, Comissões de Integração Ensino-Serviço (CIES) e AgPop-SUS.

Na quinta-feira (15), a 7ª Mostra de Atenção Psicossocial promoveu rodas de compartilhamento de trabalhos e experiências relacionados à pesquisa, ao ensino, à extensão e às práticas cotidianas das redes formais e informais de cuidado. Os espaços autogestionados também fizeram parte do encontro, permitindo que coletivos, segmentos e grupos temáticos discutissem questões como organização política, democracia, justiça social e cuidado em liberdade.

As cirandas narrativas reuniram participantes em grupos menores para compartilhar experiências e debater temas ligados à saúde mental e à atenção psicossocial. Já os intervalos Pausarte abriram espaço para performances e outras manifestações artísticas, destacando a dimensão sociocultural na produção de saúde.

Jeovhana de Souza Alves, estudante do 3º período de Psicologia da Univasf, participou do evento e ressaltou a importância de considerar a individualidade de cada pessoa na abordagem do sofrimento psíquico. “A experiência no Fórum Antimanicomial está sendo única, principalmente porque, nos dias de hoje, é muito importante discutir essa temática. Os diagnósticos são dados a todo momento, muitas vezes sem levar em conta o sujeito. O Fórum nos ajuda a abrir os olhos para ver o outro como ele é, e não apenas como alguém que toma medicamentos ou tem um laudo psiquiátrico”, comentou.

Na sexta-feira (16), último dia do encontro, a programação incluiu a leitura de um manifesto, seguida de cortejo e atividade festiva. A secretária da Mulher de Triunfo (PE), Bruna Florie, apresentou a performance Bruffa, personagem criada a partir de relatos sobre mulheres de sua cidade consideradas loucas. Por meio da bufonaria, técnica que utiliza o humor e a sátira para provocar reflexões sociais, a apresentação questiona o estigma associado a essas mulheres. “Ao pesquisar suas trajetórias, percebi que praticamente todas haviam sofrido algum tipo de violência, como abusos e agressões psicológicas. A Bruffa reúne essas vivências para questionar uma sociedade que adoece tantas mulheres e ainda as chama de loucas quando tentam romper ciclos de violência”, contou Bruna.

Espaços de cuidado, cultura e memória

Além das atividades realizadas ao longo dos três dias, o evento contou com a Tenda do Cuidado e da Educação Popular em Saúde Stella do Patrocínio, espaço dedicado a debates, Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS), atividades culturais, lançamentos de livros e exibição de produções audiovisuais relacionadas ao tema do encontro.

A Feirinha Libertária integrou a programação com a exposição e a venda de produtos artesanais e locais. A iniciativa incentivou a geração de renda de pessoas usuárias dos serviços das Redes de Atenção Psicossocial (RAPS) e de estudantes.

O encontro também abrigou a 2ª Mostra Memórias da Mobilização Antimanicomial do Sertão do Submédio São Francisco Vanessa Lisboa, dedicada à preservação da trajetória da mobilização antimanicomial na região. A exposição reuniu uma linha do tempo, fotografias e textos.

Ao avaliar o encontro, a coordenadora Bárbara Cabral destacou a articulação entre pessoas e coletivos que atuam em diferentes territórios e a contribuição do Fórum para ampliar as perspectivas sobre a atenção psicossocial. 

“O Fórum é um grande dispositivo de encontro das várias frentes envolvidas na produção do cuidado nos diversos territórios aqui do Sertão do Submédio São Francisco. Temos sempre o privilégio de contar com uma rede solidária e trazer pessoas de outras regiões para nos ajudar a ampliar a compreensão sobre outros modos de produzir o cuidado, que escapem à hegemonia da lógica biomédica. Desse modo, o Fórum é uma ferramenta política em defesa radical do valor de todas as vidas”, afirmou.

O 11º Fórum de Mobilização Antimanicomial foi realizado pela Univasf, por meio da Liga Interdisciplinar Antimanicomial do Sertão (LIAMS), em parceria com o Conselho Regional de Psicologia de Pernambuco, a Coalizão Antimanicomial Integrada do Sertão e o Movimento Estudantil Libertas.