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Estudo desenvolvido na Univasf analisa uso de células-tronco no tratamento de úlceras crônicas
![]() A pesquisa é fruto do TCC do estudante Edenilson Teixeira. |
Um estudo desenvolvido no curso de Medicina do Campus Paulo Afonso da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) avaliou a eficácia e a segurança da terapia com células-tronco derivadas do tecido adiposo (gordura) no tratamento de úlceras crônicas de extremidades. A iniciativa teve origem no Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) do estudante de Medicina Edenilson de Souza Teixeira, sob orientação do docente Pedro Tenório. A pesquisa foi publicada recentemente no Jornal Vascular Brasileiro, o principal canal de divulgação científica da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular (SBACV).
Para avaliar a eficácia da terapia com células-tronco, os pesquisadores realizaram uma revisão sistemática com metanálise, reunindo dados de 11 ensaios clínicos realizados em diferentes países sobre o tratamento de úlceras crônicas de extremidades, feridas complexas que persistem por mais de seis semanas ou que não cicatrizam completamente após 12 meses, como as que surgem nas pernas e nos pés. Ao todo, foram analisados dados de 474 pacientes. O estudo foi desenvolvido no Núcleo de Estudos Aplicados em Ciências Patológicas (NEACiP), grupo de pesquisa que reúne estudantes e professores da área da qual Teixeira faz parte.
A pesquisa, “Eficácia e segurança da terapia com células derivadas do tecido adiposo no tratamento de úlceras crônicas de extremidades: uma revisão sistemática e metanálise de ensaios clínicos randomizados e controlados”, comprovou que o uso dessas células-tronco elevou a taxa de cicatrização completa para 84,2%, em comparação a apenas 49% do tratamento convencional, e acelerou o fechamento das feridas em quase 20 dias, sem trazer riscos adicionais aos pacientes. O estudo revela um avanço para a área da saúde, já que as úlceras crônicas afetam cerca de 2,21 a cada mil habitantes e estão frequentemente associadas ao diabetes, à hanseníase e a problemas circulatórios graves, gerando altos custos hospitalares e risco de amputações.
Além de comprovar o fechamento acelerado da ferida, o estudo demonstrou um benefício secundário: a modulação e o alívio significativo da dor crônica local, o que devolve diretamente a dignidade e a qualidade de vida ao paciente. “Nosso trabalho também aponta caminhos econômicos essenciais, mostrando que o investimento inicial nessa terapia celular pode reduzir os custos de saúde ao prevenir infecções secundárias e internações prolongadas”, disse Tenório.

“Os resultados oferecem um forte subsídio científico para consolidar o tecido adiposo como uma fonte rica, abundante e de fácil acesso para terapias avançadas”, disse o professor Pedro Tenório. Na medicina regenerativa, o estudo detalha como essas células atuam no microambiente da lesão, secretando fatores de crescimento e proteínas que estimulam a formação de novos vasos sanguíneos, combatem a inflamação e organizam o novo tecido cutâneo.
A origem do estudo surgiu de duas motivações: uma inquietação epistemológica e uma oportunidade clínica. Desde antes da graduação, Teixeira pretendia atuar em pesquisa científica, e o incomodava a percepção de que parte da produção textual acadêmica se limitava a reproduzir referências consolidadas, sem aporte original relevante para a comunidade científica. Essa ideia foi amadurecida na concepção do TCC, que foi apresentado em 2025.1.
Ao buscar um desenho que conciliasse protagonismo autoral e rigor metodológico, optou, então, por uma revisão com metanálise, pois esse tipo de síntese permite interpretar criticamente o conjunto de evidências e construir uma leitura própria do tema, e não apenas justapor citações.
O maior desafio da equipe, segundo Tenório, foi a minuciosa filtragem estatística e a análise de risco de viés de cada estudo. “O processo foi extremamente rigoroso. Seguimos protocolos internacionais estritos, como as diretrizes Cochrane e Prisma, além do registro prospectivo na base internacional Prospero”, relata.
Para o pesquisador, a conquista representa um marco histórico de maturidade científica e consolidação acadêmica para o Campus Paulo Afonso e para toda a Univasf. “Ver uma pesquisa de graduação atingir o topo da pirâmide de evidências científicas e ser aceita em um periódico internacional demonstra que o nosso colegiado tem plena capacidade técnica e metodológica para formar pesquisadores de alto nível”, disse Tenório.
Teixeira destacou que a publicação representa uma oportunidade de compartilhar suas contribuições com a comunidade científica e de ter seu trabalho conhecido e considerado por outros pesquisadores da área. O egresso pretende dar continuidade ao estudo, com interesse particular em angiologia e cirurgia vascular, sobretudo na interface com a medicina regenerativa. “Meu objetivo é aprofundar a formação nessa área e construir uma trajetória que articule produção científica e prática clínica, de modo que o conhecimento gerado se traduza em melhoria assistencial”, finalizou.

